“Afinal de contas é crime ter pais que tenham uma vida social um pouco melhor que a dos outros?”
Foi um dos comentários que eu vi a tirinha que explica o privilégio. Não, não é crime. A questão não é mostrar que um seja inimigo do outro, é aprender a reconhecer que existem condições diferentes e que algumas pessoas têm o privilégio de viver em condições melhores. Às vezes se uma pessoa “chegou lá e fez” enquanto a outra tem um emprego menos validado, tipo ser garçom, não é só porque uma se esforçou mais do que a outra. Existe todo um contexto que beneficia umas pessoas em relação às outras.
É isso que a história mostra.
Não é “vamos acabar com essas condições!” ou “é crime ter uma vida social melhor”, é aprender a ter noção de que existe essa diferença e acabar com essa ladainha de “esforço próprio”. Aprender a se abrir para incentivar os outros a terem essas chances também. Ou, no mínimo, não tratar como se o resto do mundo fosse incompentente e dizer coisas como “é mérito” ou “eu fiz porque quis” ou “é só querer”.
Aliás, isso é muito importante e talvez o único inimigo da história: a ideia de que é mérito próprio.
A tirinha é até voltada para as pessoas que não têm privilégio (repare como o protagonismo é centralizado nos últimos quadrinhos), como um lembrete de que elas podem reagir. Se ela tá lá servindo enquanto outro diz que não recebe nada de bandeja, não é porque ela é incompetente, é por uma série de outros problemas que não têm nada a ver com capacidade própria. E também não é uma história conformista – é sobre reconhecer que esse não é o seu lugar e que você pode exigir mais.
Pra completar, quero lembrar que o privilégio não é relacionado apenas a condição social. Por exemplo, as estatísticas que mostram que mulheres recebem menos que homens pelo mesmo emprego. Então os dois fazem o mesmo esforço – e aí o homem ganha mais por ser homem, vive melhor e diz que é mérito próprio.
Não. Por favor: não.
Indico, além de ler a tirinha, completar com esse texto sobre a ilustração do que significa o privilégio e com esse texto onde a Bells relaciona a tirinha com a própria vida. Ah! E eu também já falei sobre meritocracia relacionado a mulher receber menos qui.
obs: o tipo de pergunta como “afinal, é crime ter uma vida melhor?” é uma forma de centralizar a conversa em si mesmo e desvalidar a crítica. o problema não é você ter uma vida melhor, é achar que é melhor que os outros por mérito próprio sem reconhecer que tem condições melhores. e os outros acharem que não são bons o bastante porque vivem ouvindo que quem se deu bem fez por esforço próprio.