Já vi várias pessoas de minorias falarem de vários modos que nunca sofreram por ser parte dessa minoria, mas “nunca sofri preconceito” foi a melhor delas, porque traduz a raíz do problema. Será que você não sofreu mesmo?
Não sei por que, mas é muito comum a gente entender preconceito como algo que a gente sofre, tipo algo que é jogado em você tipo uma pedra. Como se uma mulher sofrer com preconceito fosse alguém virar na cara dela e dizer “você não pode entrar aqui porque você é mulher”, ou uma pessoa negra ser xingada de algo pejorativo, ou a pessoa LGBT+ ser espancada.
Pra constar, todas essas formas de violência são preconceitos reais que as pessoas sofrem. Mas não são os únicos. Aí é que tá o problema.
Nós pensamos que violência (e o preconceito) acontece só nesse campo de batalha claro. Só com esse tom de “eu te odeio”. Só desse.. sabe o que eu to falando? Só por pessoas que claramente querem fazer mal às outras, usando agressão. Só que o preconceito também é muito mais silencioso que isso.
Uma vez eu fui andar de kart com os meus primos, todos ansiosos ouvindo os procedimentos de segurança e tal, daí o instrutor fala antes de liberar algo tipo “vão com cuidado que ela é uma garota” – e foi super fofo. Ele estava preocupado, foi atencioso, teve um cuidado extra comigo pra colocar os equipamentos. Não foi aquela coisa de pessoa babaca falando merda, foi cuidado genuino de uma pessoa simpática.
E foi preconceito.
Só de me ver ali mulher ele partiu do princípio de que eu precisava ser protegida, ou não teria a mesma capacidade que os meus primos, ou sei lá. Você tinha literalmente o meu primo criancinha com a gente – e era eu que precisava de cuidado. E, na hora, eu também acreditei nele, porque é super legal ter alguém que se preocupa com você.
Mas o que essa merda significa no dia a dia? Você ali pronto pra fazer algo que todo mundo vai fazer e, de repente, só você deve tomar cuidado e ser protegido? Será que eu preciso mesmo? Será que eu sou ruim nisso?
E isso é só 1% de algo que acontece o tempo inteiro.
Uma vez eu tive uma conversa com uma pessoa que afirmou “nunca sofri preconceito” – logo depois de contar que os pais não sabiam que ela tava namorando alguém do mesmo gênero e que havia se assumido como gay porque essa pessoa com quem namorava não queria nem pensar na possibilidade dela ser bissexual. Muito disso naquele “aah, nada dessa discussão diz respeito a mim, eu to de boa com as coisas desse jeito, nunca nem sofri preconceito”. E o que eu não contei é que ela estava, sim, sofrendo preconceito.
Porque você consegue ter uma vida feliz dentro dessa bolha de felicidade, mas não quer dizer que você esteja sendo tratado como pessoa.
Você não vai ter um jantar em família com os seus pais, ou eles fofocando a sua vida animados com a pessoa que você ama (ok, essa parte é até um alívio…). Você vai pensar duas vezes antes de dar as mãos em público. Você não vai mudar status no facebook. Você não vai postar fotos e fazer declarações. Ou vai pensar muito bem em quais fotos você vai postar e no que vai fazer nessas declarações.
Coisas idiotas que não são (ou não deveriam ser) nem necessariamente um problema, mas se tornam uma preocupação.
“Ah, eu to de boa, não sofri nenhum preconceito. AI MEU DEUS MEU PAI QUASE PASSOU AQUI E VIU QUE EU TAVA ASSISTINDO UMA SÉRIE DA DISNEY COM DOIS GAROTOS DE MÃOS DADAS. SOCORRO. FOI POR POUCO”
Já parou pra pensar que nós não temos nenhum filme (ou série) de super-herói protagonizado por alguém que não seja branco?
Isso é preconceito.
Isso é um apagamento da sua imagem.
Isso é transformar quem você é em menos do que você pode ser.
Isso não é feito por nenhuma mente maligna em uma sala de controle mundial. Isso é feito por uma tradição cultural que é baseada em tratar um grupo específico como o certo, enquanto o resto não são pessoas completas (e não recebem os mesmos direitos).
E, mesmo que você consiga viver bem, não deixa de significar que você esteja sofrendo por isso.
Enfim, quis escrever pra lembrar que existe esse preconceito silencioso, que as pessoas sofrem, e que normalmente nós não enxergamos e nem reconhecemos a violência que isso pode causar. Pior: quando alguém tenta mostrar essa violência, nós não reconhecemos porque aprendemos a enxergar o outro tendo menos valor como “normal”.
Extras (outros exemplos):
Jennifer Lawrence fazendo pedido de desculpa e explicando por que ela quis tirar fotos nuas. Wtf. E ela precisando justificar isso como necessidade do namorado. Wtf. Wtf. e wtf. Uma mulher querer tirar foto nua porque quer tirar foto nua… não pode? Se ela não sofresse preconceito, ela teria escrito pra falar que foi abusivo roubarem as fotos dela e que ninguém deveria invadir a privacidade alheia e compartilhar. E que todo mundo que perpetua isso está sendo abusivo também.
É muito comum garotas expressarem que desviam o padrão de gênero dizendo “amo azul, odeio rosa”. Esse é o nível da situação – você precisa falar sobre as cores que gosta. Mas a merda é que a pessoa pode começar a desvalorizar o que é considerado feminino e mulheres como um todo. Sinceramente não to sabendo explicar isso, mas eu vejo muito isso acontecer. OLHA, EU SOU DOS GAROTOS. OLHA, EU GOSTO DE COISAS ~DE GAROTOS~.
Uma alternativa é mostrar que azul é uma cor feminina, que brincar de lutinha ou não ser sentimental é feminino também, tudo isso é coisa de mulher. Se você é mulher e faz algo, é coisa de mulher. E não desvalorizar as escolhas de outras mulheres, mesmo que você não entenda.


