Eu acabei indo ver esse filme muuito por acaso: tava de boa aqui em casa, meu primo perguntou se eu queria ir no cinema e… por que não? Bem, a situação no cinema tá deplorável e “Um Senhor Estagiário” foi a melhor opção (ver a Anne Hathaway é sempre uma boa opção). Então fomos.
Um Senhor Estagiário é um filme importante – mostra a história de Jules, a dona de uma startup de moda atarefada e todos os conflitos de ser a chefona mulher de uma empresa em ascensão que o marido fica em casa cuidando da filha. É uma história muito legal sobre mulher no trabalho. Eu não lembro de ver muitos filmes onde você tem o pai em casa cuidando da filha e isso sendo mostrado com tanto amor – o pai vai pras festinhas da filha, brinca de Pequena Sereia, faz bolinho. Mais do que isso, ele escolheu ficar em casa para dar força para Jules crescer na própria carreira e temos discursos do tipo “você não deveria deixar a carreira ou ir mais devagar por causa do marido”.
Dessa perspectiva, é um filme lindo sobre dar suporte à independência da mulher na carreira de trabalho e sobre homens também poderem virar “donos de casa”.
Além disso, Jules não é a única protagonista – nós temos Ben, o novo estagiário dela. O que acontece é que a empresa de Juler começa um programa de estagiários idosos e ela é “obrigada” a ficar com Ben por um tempo. A primeira parte do filme, inclusive, é voltada para ele. Um velhinho carismático interpretado pelo Robert De Niro que não tem absolutamente nada pra fazer com o tempo e vê na oportunidade de estágio a chance de fazer parte de algo. É apenas: lindo.
Quando eu tava saindo da sala de cinema percebi quanto velhinho tava na sala! (parecia que a gente entrou num filme de 3ª idade) E eu fiquei pensando o quanto é importante um filme com velhinhos pra velhinhos. Eles ainda estão ali! Eles também merecem representatividade.
Enfim.
Até aí tudo lindo, inclusive tem uma cena de assalto (!) muito boa e o filme desenvolve detalhes de cada personagem com tanta delicadeza. É difícil ver essa construção mais do que superficial em filmes.
Mas. Maaaas.
É um filme tão White Feminism™ “eu amo homens também!” que não tem a menor noção de muitos problemas e reproduz tanta merda. Inclusive pra terceira idade.
Primeiro, eu não lembro nem de ter visto alguma pessoa que não fosse branca no filme inteiro. Não estou falando nem de negras – latino, asiático… qualquer coisa! Nada. É um filme que não tem nem a preocupação do ligeiro melhor-amigo-negro. E olha que tem bastante personagens! Eu não lembrava nem que podia ter tanta gente branca em cena.
A segunda coisa foi que o velhinho Ben quando tá vendo o anúncio de emprego encontra uma outra velhinha – bem velhinha mesmo – toda tarada nele. Aí: que legal! Mostrar que mesmo velhinha a mulher tem interesse. Velhinha tarada é comédia garantida. Enquanto ele tá tipo “ok, não”. Mais tarde na empresa de Jules ele encontra outra mulher mais velha, só que beeeem mais nova do que ele. Enquanto a primeira você olha e “ok, velhinha”, a segunda é mais pra “pode ser a minha tia?” e no próprio filme a diferença de idade é remarcada, já que ela ainda tá pra ter o primeiro neto enquanto ele já tem faz tempo. Nessa ele tá interessado. Como ela é massagista, em uma cena no meio do escritório ele fica com uma ereção recebendo uma massagem e em outra quando outra pessoa entra na porta pensa que ela tá fazendo sexo oral nele. Por um lado: yeey, velhinhos estão com tudo! Por outro: vamos fazer uma história que empodera velhinhos, mas a mulher não pode ser velha. e toda essa parte sexual que é centralizada nele como pegador é triste. Eu me senti mal assistindo.
E pra constar: homens mais velhos com garotas mais novas é um dos problemas sérios de representatividade de Hollywood. E outro dia mesmo na newsletter do CC eu tava conversando sobre não permitirem mulheres envelhecer.
Acabou? Não acabou. O filme é cheio de discursos sobre como os homens devem ser, tipo “os homens de antigamente”. Usem terno. Lenço. Sejam cavalheiros. Algo tipo “Você carrega lenços pra poder emprestar, porque as mulheres ficam chorando”
O clássico mulher são X, homens são Y.
O problema que a Jules enfrenta com a empresa é que os investidores estão pressionando pra contratar um CEO (um homem experiente pra tomar conta, porque ela não tem nenhuma formação ou sei lá) e aí o dilema é que se ela contratar o CEO pode ser que ela tenha mais tempo pra ficar com o marido e a filha. Ela considera seriamente fazer isso por medo de morrer sozinha, de que nenhum homem vá gostar dela, mesmo que ela saiba que o marido atual esteja (spoiler!) traindo ela.
É aquele pensamento babaca de: se a mulher não tá fazendo papel de dona de casa e dando atenção ao marido, ele pode sair traindo ela por aí.
O filme é contra isso. Inclusive em um momento a personagem critica essa necessidade babaca de provar a própria masculinidade quando a mulher é superior que você no trabalho.
Mas é uma confusão. Em uma cena o Ben diz algo tipo “eu odeio ter que ser o feminista dessa conversa, mas você não deve largar o emprego por causa dele” e o marido dela praticamente vai atrás dela implorar pra ela não contratar um CEO por causa dele. Basicamente, são homens dizendo pra ela o que ela tem que fazer.
Ela tem uma assistente (secretária?) mulher que se mata pra trabalhar com ela, e ela não dá atenção (como a própria assistente diz) e é o Ben que faz ela reconhecer o valor da garota – o que ela nem faz em cena, mesmo que faça com os 3 estagiários bobões em outra. O filme mostra as outras mães invejosas por ela ter um emprego – e é novamente o Ben que dá a volta nisso no melhor estilo “que bom que ela tá sempre trabalhando, né? ela é um exemplo…” (do tipo: moças, vamos torcer para as outras moças!)
De uma forma bem geral, é o filme sobre uma mulher que quer liderar a própria empresa enquanto tem uma família num mundo machista, aí conta com a ajuda de um velhinho simpático que reconhece ~o valor real~ dela. Não gosto muito de como o valor da mulher é definido pelo homem aqui. Já reparou como as heroínas que saem do padrão parecem sempre precisar de uma figura masculina para ensina-las algo? Wtf.
E eu não terminei! Pra completar, o famoso fat-shaming (envergonhar a pessoa por ser gorda). Quer dizer, não que tenha uma pessoa gorda no filme (tem: uma velhinha que aparece numas 2 cenas; e aquele ator de Pitch Perfect que namora a Fat Amy; acho que uma figurante), mas tem um momento que a mãe da Jules diz pelo telefone algo tipo “mulheres (ou pessoas?) que dormem menos de 7 horas por noite têm mais tendência a engordar”, ao que a Jules-Anne-Hathaway responde “Mãe, eu não durmo faz 2 anos!” E acabou? Não.
Voltando para a cena lá da assistente dela, que tá chorando (pra receber o lencinho) porque não é valorizada pela chefe e o Ben em meio segundo já foi promovido, algo tipo:
Ela: “eu trabalho pra ela 12 horas por dia!”
Ben: “Vá para casa mais cedo, durma mais, tire um tempo…”
(essa poderia ser uma ótima cena de como as mulheres trabalham mais pra tentar ter o mesmo reconhecimento que o homem, mas ok)
Aí pra convencer a assistente a dormir mais ele conta dessa pesquisa sobre as chances de engordar. Quase “Para de trabalhar pra não engordar, moça!!”
Ou seja, no fim é um filme válido porque perto da merda padrão, ainda mostra a mulher no emprego, valoriza o trabalho e o direito dela seguir a própria carreira sem ter que ser dona de casa também. É divertido, apesar de não 100% risada. É ok assistir. É, inclusive, um filme escrito e dirigido por uma mulher. Mas tem todas essas merdas, que é claramente aquele “MULHERES PODEM!” bem desinformado.