O texto doido que discute as implicações da comunidade mágica de Harry Potter na História do mundo real que você respeita.
ou: eu acho que gosto mais do que devia de worldbuilding
Quando saiu a notícia sobre as escolas de magia ao redor do mundo, eu e o João conversamos sobre as possibilidades da escola brasileira Castelobruxo, o que levou a uma discussão: como é que seria? seria algo indígena? Mas o nome não é indígena, seria então reflexo da colonização europeia? O que aconteceria? E ultimamente eu tenho pensado muito sobre isso, por isso estamos aqui.
Acho que a premissa básica desse texto é: mágica muda as coisas. Pensa em termos de escravidão, como seria se os escravos tivessem magia. Aqui no Brasil durante a colonização, enquanto as terras e tribos iam sendo devastadas pelo colonizador europeu, os magos desses grupos não teriam feito nada?
Eu acho difícil.
Então, o que aconteceu?
Eu sei que a comunidade bruxa é representada como alheia ao mundo trouxa, e seus problemas. Mas ao mesmo tempo é estranho imaginar que até mesmo os bruxos não iam saber das guerras mundiais, do nazismo, dos campos de concentração – e iam viver na deles como se nada tivesse acontecendo. Ainda mais quando membros dessas comunidades nascessem com magia.
No geral, eu não tenho muito o que falar. É só uma curiosidade. Uma dúvida.
E aí quando a gente pensa como a escola americana é apresentada, fica meio claro que os bruxos carregam essa mentalidade colonizadora. A escola americana, pela história mostrada, foi feita por uma bruxa colonizadora que se mudou para os Estados Unidos, e as casas deles são inspiradas na cultura nativa de lá, só que não é encabeçada pelos próprios nativos. Ou seja, a bruxa veio, construiu o castelinho, garimpou os conhecimentos mágicos dos indígenas e começou a ensinar para os outros bruxos europeus, ou até fazer a sua ~catequização~ dos nativos magos. E, sinceramente, onde estava esses bruxos quando as tribos eram exterminadas?
Provavelmente no castelinho isolado, falando que não se envolve em questões trouxas. Talvez até criticasse os indígenas magos se revoltando contra os europeus, porque “pra que essa agressividade!! pra que violência!!” – enquanto os indígenas morrem.
Outro dia eu tava vendo uma lista de matérias em Hogwarts (por um motivo totalmente não relacionado), e agora tô pensando que não tem nenhuma matéria sobre tipos de magias e culturas magas ao redor do mundo. Talvez isso seja um subtópico de História da Magia, mas ainda assim. É difícil imaginar que todas as comunidades magas do mundo tenham se desenvolvido da mesma forma. Em alguns lugares, não duvido, povos vivem/viviam tendo harmonia entre trouxas e bruxos. E em alguns lugares a magia poderia ser canalizada por uma forma que não através de varinhas.
Eu fico imaginando que no caso dos escravidão sofrida pelos negros, os bruxos que foram retirados de suas terras natais em meio a pessoas não magas, sofreram da mesma forma que no mundo real. Eles foram roubados de sua cultura, proibidos de estudar e desenvolver e falar sobre. Também culturas diferentes foram misturadas. Então a magia negra nas colônias é algo tipo a capoeira ou as religiões africanas, formas de resistência que sobreviveram escondidas embaixo da cultura branca. E não é de se duvidar que bruxos brancos ajudaram a conter essas comunidades mágicas.
Também tem a questão de que a comunidade maga europeia sofreu perseguição, então provavelmente os bruxos não são tanto assim, e isso deve ser a fonte do ódio dos comensais da morte com a questão de sangue puro. Casamentos com trouxas podem ter feito muito o sangue bruxo desaparecer?? E a mistura ~forçada~ entre magos e trouxas pode ter feito o número de magos diminuir nessas comunidades tipo indígenas e negras? E eles também, por causa da quebra com seus ancestrais, não sabiam reconhecer a própria mágica? E talvez os que fossem reconhecidos como bruxos desde pequenos eram retirados de sua família/comunidade e levado pra ser instruído em um ambiente branco-mago-europeu??
É a maior viagem. Mas acho que no geral a moral é que a comunidade bruxa carrega o racismo/xenofobia trouxa. Isso é claro pelos livros, né? Voldemort tá aí pra provar, e não é só com meio-sangue e trouxas que eles têm esse problema, mas também nós vimos como tratam o Lupin por ele ser um lobisomem. Agora o que J.K. Rowling não chegou a questionar, são as próprias formas de racismo e xenofobias e aversão da nossa realidade (ou dos trouxas), e como essas questões se encontram.
Eu acho que de certo modo, os bruxos devem ter uma forma de “irmandade” maior que é vista pelo sangue mágico. Digamos que entre um trouxa inglês e um bruxo japonês, o bruxo tradicional inglês vai ver o bruxo japonês como “o meu povo”. (isso da perspectiva europeia, porque não dá pra saber a relação de outras comunidades mágicas ao redor do mundo com trouxas) Só que por mais que veja como “o meu povo”, ainda existe uma sobreposição cultural da cultura maga europeia sobre as outras, e um certo “foda-se” pra o que acontece com essas outras comunidades magas na mão dos trouxas e foda-se se eles, por chegarem e se apropriarem, estão colaborando para o apagamento dessas formas alternativas de magia. (?)
No fim do dia, isso é a maior ginástica mental pra explicar algo muito simples: J.K. Rowling é uma mulher cis hétero branca da europa e seus livros estão marcados por essa perspectiva. Ela pode não ter a intenção de ser racista blablabla, mas os livros + material relacionado são cheios de apagamento das minorias. E também nem é do interesse do livro em si discutir as consequências a nível mundial/Histórico da existência de magia.
Mas quando por curiosidade/diversão a gente faz isso, começa a ver como essa pespectiva branca/europeia tem impacto em termos históricos. Tipo, a extensão lógica do universo de Harry Potter, de acordo com o material da J.K. Rowling, é que a comunidade bruxa mesmo tendo o poder (magia) pra mudar a História de algum modo, não fez isso. Ela permite que todas as merdas que as minorias sofreram e sofrem aconteçam.
A conclusão é só: a comunidade bruxa de Harry Potter é tão machista, racista, xenofóbica, lgbtfóbica quanto a trouxa. Talvez até pior ainda, porque eles se distanciam das responsabilidades como se fosse “assunto de trouxa” e criam uma amnésia cultural em minorias, que sofrem as consequências sem nem saber.
E aí dá pra levar essa discussão pra muitos outros lugares, mas por hoje é só.